sábado, 4 de julho de 2009

A Metáfora da Época.



Kruger Park, África do Sul. A metáfora perfeita.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

terça-feira, 30 de junho de 2009

Os Amigos da Rua.



O Gabriel, de dezassete anos e o Paulino, de dez. São alguns dos meninos da rua que se agarram ao carro a pedir o que quer que seja sempre que alguém estaciona na zona "nobre" de Nampula.

Hoje fui despedir-me deles. Durante estes meses ralhei, gritei, garanti que não daria coisa alguma, ameacei que os levaria para o orfanato, mas ia dando umas sandes, um rissol, um pacote de bolacha. Hoje, com o frio que faz, que para nós é pouco, mas que para eles é muito, resolvi presentear a despedida com uma camisolita mais quente que os autênticos trapos que traziam. Ficaram contentes. Finalmente o mucunha rabugento tomou uma atitude...

Agora só faltaria ao Gabriel deixar o esquecimento do vinho e ao Paulino aprender a ler e a escrever, para que um rumo, qualquer um mas pelo menos um, pudesse ser dado a estas frágeis vidas...

O Inverno do Avesso.


Ao longo destes meses, contei-te algumas peripécias desta outra história que resolvi contar.

Fui contando mais dos meus pensamentos que dos meus olhos. E, ao ver atrás, receio que não tenha explicado o suficiente ou tenha turvado a tua própria vontade, que talvez fosse mais saber como é do que como eu penso que é.

Perdoa-me o egoísmo. A verdade é que avisei. Eu disse-te que ia escrever para mim.

Não sei se é do calor. Se é do cheiro. Se é das pessoas. Se é do diário choque frontal com o desvalor da vida e a vulgaridade da morte. Se é de comer frango e arroz com as mãos numa cabana de lama e capim perdida ninguém sabe onde, com o rosto e a roupa cobertos de pó, sob o olhar envergonhado de uma velha senhora que responde com tecidos garridos e rugas esculpidas a escopro do tempo. Se é do sorriso sol que sai de meio metro e vinte quilos de gente, roto e descalço, à mais pequena carícia que lhe toca. Se é da consecutiva sinfonia de cores e formas que o céu toca todos os dias, cantando orgásmico a noite que chega, imperadora reclamando o seu lugar, uma música que se repete e repete, como se Deus passasse aqui todos os dias a caminho de casa para descansar.

Sei que, mais uma vez nesta vida, depois do Oriente, também o Sul faz dos olhos e dos pensamentos outros que não os que aqui chegaram.

É assim este Sul e é isto que ele faz. O sítio onde a água espira no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio e onde eu sou ser de Inverno.

sábado, 27 de junho de 2009

O Dia da (In)dependência.


Ontem celebrou-se o Dia da Independência. Dia em que Moçambique se libertou das correntes do colonialismo e em que alcançou finalmente a vitória final na guerra de libertação do povo oprimido.

Nas televisões, um corropio de eventos e declarações patrióticas. As pessoas da rua afirmam satisfeitas: sou independente.

Curioso.

Tudo isto faz interrogar-me sobre quem será pior.

Eles, porque se o repórter os deixa falar um pouco mais, dizem logo que à parte da independência, agora (trinta e quatro anos depois) só falta vencer a fome e a miséria. Só. E pôr estradas onde um carro não se parta em dois, pôr luz e água em oitenta por cento do território, fazer escolas, hospitais, pontes... A propósito de pontes, o presidente afirmou que uma enorme vitória do povo e do partido está prestes a chegar: a conclusão da construção da ponte sobre o Rio Zambeze, que permitirá finalmente ligar o país de norte a sul por estrada. Esqueceu-se de referir que são os portugueses que estão a fazê-la. Para não falar de Cabora Bassa.

(A vitória. Conseguida porque lá longe houve gente que quis acabar com a guerra. Mas aqui a versão é outra. Como em qualquer outro local, aqui a História também é contada por quem ficou, não por quem foi.)

Mas não sei quem é pior.

Nós, porque no meio desta crónica ingratidão e desavergonhada distorção da História, sobressaem os brancos que por aqui vagueiam. Uns há muito, outros há pouco. Mas que além da cor têm algo em comum: a atitude. Sobranceira, paternalista, voz forte vociferando comandos disfarçados com uns "por favores" e uns "obrigados" aqui e ali. Versões tímidas do patético capataz de fazenda que referi aqui há uns tempos a propósito da diferença do braço. Bom, mas esse ao menos era honesto e total no que dizia.
Os da cor certa têm vergonha. Ou medo. Um medo que vem do mais recôndito canto escuro da alma, que deve ter acompanhado sempre todos os povos colonizadores, todos os dias, em todos os locais: o medo indizível que um dia aquele temor reverencial que "eles" ainda hoje mostram, o maldito "sim patrão, não patrão", um dia se estatele como uma máscara cai desamparada e que a vingança por esse perpétuo jeito insidioso de mandar e de se fazer superior se abata sobre si como um leão esfaimado.
Consigo ver tão bem nos seus olhos um brilho de satisfação, de inevitabilidade fatal, quando dão uma ordem e ela é obedecida imediatamente sem uma pergunta, sem um olhar. A pequena consolação dos pequenos homens.  

Eu faço a minha parte. "Não sou teu patrão". "Não sou teu boss". "Estás a pedir-me dinheiro porquê, porque sou branco? Achas que sou rico por ser branco?". Partilho as tarefas, mesmo as pesadas. Não interrompo ninguém para que as minhas necessidades se sobreponham às dos outros. Digo e repito ao Zeferino que nós podemos ser amigos, apesar de ele dizer insistentemente que não, que somos diferentes e que eu estou acima.

Mas sinto-me como se caminhasse em cima de um tapete rolante.

Tem-me acontecido várias vezes concluir que "eles" não querem verdadeiramente o nosso apoio. Fazem questão de mostrar que só intervimos devido ao seu consentimento e que, por isso, toda a intervenção não é intervenção estrangeira, é intervenção estatal por intermédio de estrangeiros. Dificultam, burocratizam. Vejo-me várias vezes a ter de pedir ao Estado para poder ajudar. Paradoxalmente, os beneficiados, quando as coisas demoram um pouco mais ou não chegam na medida ou no modo desejados, olham-nos de soslaio e queixam-se do mau apoio prestado.

Para tapete rolante, prefiro outros, menos complicados.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

A Clara Certeza da Escolha.


Por vezes, há certos momentos breves que definem o resto da vida de quem os vive. Não falo daqueles que por si mesmos alteram inevitavelmente o rumo dessa vida, mas daqueles que, depois de sucederem, obrigam o indíviduo a olhar o espelho e a fazer uma escolha que, essa sim, alterará a sua vida.

Pode ser o nascimento de um filho; a morte de um parente; uma doença séria; uma promessa feita a alguém; ou o confronto directo e imediato com a eventualidade da sua própria morte.

A necessidade de fazer uma escolha em dois segundos, que pode determinar o resto da vida. A certeza clara que, dessa escolha, feita de súbito, sem tempo para ponderar, pode resultar a própria morte. Essa é uma experiência pela qual nem todos passam, mas que é encantadoramente saudável, na medida em que mostra de modo muito transparente aquilo de que somos feitos.

Eu só fui tomar um café depois de jantar. Toda a vida o fiz. Em Portugal, no bairro mais obscuro de Saigão ou numa cidadezinha escura e fria da Europa de Leste, à noite, de dia, nunca deixei de tomar o meu café quando realmente queria um. Faz parte de ser Português, acho eu. E faz parte de mim.
Porém, na verdade, o café foi desculpa, porque o que se procurava mesmo era sair de casa, apanhar ar, desentorpecer as pernas, tentar atenuar um pouco esta sensação de prisão permanente, arejar a cabeça deste sufoco mental. Nada de mais. O café ficava a cem metros de casa. Não era pedir muito. E era a primeira vez que o fazia desde que pus pé nesta terra.







No regresso, tive o meu momento breve.






Mas essa é uma escolha.

A escolha de que falo é a que vem depois, em resultado da primeira. É da mesma forma inevitável, sendo a diferença entre elas haver nesta a possibilidade da reflexão e da planificação, onde existe ainda a vantagem de juntar outros elementos e outros momentos - mesmo que com menos impacto - ao juízo que está a ser formado.

São contas de deve e de haver.

Sempre me disseram para ter cuidado. A cidade não é muito agradável. Nunca me disseram propriamente que é um esboço de favela, onde não é possível dar um simples passeio à noite e onde é imperativo trancar as grades de fora, as grades de dentro e as portas da casa. Fui ficando a saber. E, desde há oito dias, fiquei a saber melhor.

E a necessidade da escolha, assim, sem que se peça ou se queira, impõe-se, inevitável.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Aparências e Ilusões.


Veja-se o anúncio de uma das operadoras móveis de Moçambique.




É assim, aqui. Ou querem fazer assim parecer.

domingo, 7 de junho de 2009

O Fantasma do Garrett.


Há um café que se chama Garrett. Fica num primeiro andar, com varanda, muito perto da residência do Governador.

Sobem-se as escadinhas estreitas, depois de deixar o carro e bufar cada vez mais seco que não às crianças pedintes que infestam as ruas. Agora já as ameaço que as levarei para o orfanato. Algumas assustam-se. Outras não sabem o que isso é.

As escadas terminam e, no final, todo o espaço fica à esquerda. Depara-se uma sala pequena, com três ou quatro mesas e o balcão, à esquerda também. Lá ao fundo, uma sala de bilhar, grande. E à direita, a varanda, maior que o resto do café, estilo esplanada. Há duas telas para projecção, uma dentro, outra fora. Todas as mesas e paredes são dominadas pelas cores e logótipo da maior empresa de comunicações móveis de Moçambique. Verde e amarelo. Tudo gasto e velho. Tudo bem. Tudo normal.

O gerente, um senhor de quarenta e muitos anos, indiano nascido português e filho do fundador do café, esforça-se por agradar aos que fazem lembrar-se de tempos melhores. Ele que o diz. Hoje tentou ligar o projector, mas não conseguiu. Portugal viu-se de longe, mais longe do que daqui aí, mas viu-se.

Ainda o jogo não tinha começado, outro homem, mal pediu, sentou-se. Como sempre, fiquei a observar fixamente sem dizer palavra, como se não estivesse ali, mas a deixar claro que estava. Era indiano de feições, cinquenta anos, barba grisalha de muçulmano, sem bigode, túnica branca comprida e aquele chapéuzinho redondo típico na cabeça. Tinha óculos, mas usava-os sustentados na testa, bem acima das sobrancelhas. As lentes tinham, na parte de baixo, uma alteração que já não via há anos – a parte para ler e ver ao perto. Podia estar numa manifestação anti-América no Paquistão, que não seria de estranhar.

Apresentou-se mas depressa disse que era difícil soletrar. E, sem que alguém lhe pedisse o que quer que fosse, puxou de uma caneta e escreveu com energia o seu nome num guardanapo. Mesmo apesar de a caneta não deixar tinta, ele continuava a escrever, como se visse algo a aparecer no papel. Emprestei-lhe a minha. Chamava-se Momadikhatir ou algo do género. Então lá explicou que quando foi levado pelo pai saudita e mãe indiana ao registo português de Nampula, o senhor do registo, provavelmente farto de nomes incompreensíveis, registou como ouviu. Porque deveria ser Momade (versão moçambicana de Mohammed) Ikhatir. Aliás, como professor que é, deveria merecer melhor tratamento, dizia. Logo ele, que após a independência, decidiu manter a nacionalidade Portuguesa, merecia mais. Merecia mais.

Depois começou a falar de futebol e nós para trás e nós para a frente, o gajo só serve para a formação ou para treinador adjunto e não acredito que ganhemos o resto dos jogos até ao fim. E percebi que estava a falar de Portugal.

Então não está triste por o seu Moçambique ter perdido (tinha acabado de perder dois zero com a Tunísia)?

O meu? O meu joga a seguir.

Como se se tratasse de um fantasma a assombrar despreocupado a casa em que viveu toda a vida, mas sem se aperceber de que já não há nada nem ninguém para assombrar.

sábado, 6 de junho de 2009

A Caminho de Mim.


Daqui a um mês, certo, estarei em casa da minha mãe.

A encher a boca o mais que posso com o amor salgado e doce, apurado e macio que por esta hora já ela deve estar a engendrar, com a lagrimita costumeira no canto do olho.
É uma lagrimita de mimo, mais do que de saudade. É de saudade, claro, mas o menos óbvio é ser mais de mimo. Pois é assim a minha mãe.
A lágrima que ela chora agora é de alegria muda, como a vergonha de uma criança apanhada que esconde um segredo, porque a distância, do tempo e da terra, é um enorme nada quando posta ao lado do amor que ela sabe que a sua para sempre cria traz por si. Como se dissesse e lamentasse, como se protestasse e amuasse, mas que no fundo sorri feliz, pois sabe que as coisas serão sempre como são e não mudarão.

É uma sensação que restabelece e reequilibra. A noção cada vez mais concreta e menos vaga da saída. Como se o raciocínio claro começasse a acordar de uma longa hibernação, de um hipnotismo necessário à sobrevivência mas caro à vontade e ao carácter.

Um mês. Espera-me com um pedaço de terra para eu beijar.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Porcos de Pérolas.


Vais desculpar-me por estar sempre a chatear-te com a mesma conversa, mas se não desabafar, isto não vai lá.

Ontem foi o Dia Internacional da Criança. Como em tudo aqui, o paradoxo é a regra. Então, a festa é grande. Não chega ao nível do Dia Internacional da Mulher - que é feriado nacional (???) - mas é dada uma grande atenção à criança no dia Um de Junho. Ou dito de outra forma: no dia Um de Junho, é dada uma grande atenção às crianças de Moçambique. Ou ainda de outra: em Moçambique, é dada uma grande atenção à criança todos os dias Um de Junho de cada ano.

Fui claro?

Como se toda a negligência, toda a corrupção, do governo, dos professores, dos pais e de todos, que afectam directamente os estômagos e as mentes de uns pobres desgraçados de um metro e vinte, que são a (única) coisa mais bela que há nesta terra, negligência e corrupção que duram trezentos e sessenta e quatro dias do ano e ainda mais este, se esfumassem no meio dos discursos de cobra gorda e nos refrescos de trinta cêntimos.

Noventa por cento das crianças de Moçambique comem amendoim, mandioca e cana de açúcar. Só. Algumas comem também arroz e/ou farinha cozinhada com água. Frango, muito muito raramente. A água é invariavelmente não potável e por tudo isso é que andam todos de barriguinha inchada e com o açúcar a rebentar as veias - depois aparecem feridas estranhas na pele e dizem que vêem mal...

E quando o branco rico e burro vai a uma escola de mil crianças fazer a festa do dia da criança, com torneios de futebol, feijoada de arroz, frango e repolho, prato cheio, alguns a repetir segunda e terceira vez porque a fome é muita e são todos geneticamente vigaristas, isto para todos - professores e tubarões incluídos, e depois ainda um sarau com os trabalhinhos que as crianças prepararam para este dia (pecinhas de teatro, canções, poemas, etc), o que diz o preocupado agente governamental que veio agraciar todos com a sua presença neste importante dia da criança e que só com essa majestática benesse mostra a genuína e importante preocupação dos seus chefes com os meninos?















"FEZ FALTA O SUMO".

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Efeito Camaleão.


Um dia destes chamam-me mano e pedem-me o BI em vez do passaporte.

Wally e as Estrelas.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

O Belo e o Real.


Quando se reflecte sobre o fim e o fundamento da acção no terreno de uma organização humanitária, há várias ideias que surgem e que, aparentemente, assumem importância semelhante. Porque as solicitações são muitas e todas parecem demasiado urgentes. Sejam a favor de um indivíduo ou de vários, as intervenções em geral são entendidas como benéficas e úteis, sobretudo aos olhos do observador externo.

São conceitos complexos. Fim e fundamento implicam juízos morais, que habitualmente variam, consoante a pessoa e consoante o contexto, sem que isso afecte a convicção pessoal da validade de cada uma. O que traz naturalmente alguma dificuldade no encontro de consensos.

Há porém, algumas dessas ideias que, pela característica intrínseca de elementaridade e pela abrangência universal dos seus efeitos, tornam-se um pouco “mais importantes” para a maioria dos juízos e das convicções.

Moçambique é um país que, apesar da muita chuva que cai na estação húmida, sofre com a falta de água. E isto acontece porque não existem infraestruturas que garantam não só o armazenamento da água mas também, e sobretudo, a distribuição em rede. O que acarreta uma realidade bem conhecida no interior de Portugal até há poucas dezenas de anos, que é a necessidade de percorrer muitos quilómetros para ter alguma água em casa. Este simples facto traz atrasos na lida diária da casa e no quotidiano das gentes de tal ordem que a questão assume foros de verdadeira tarefa diária, como o nosso “ir às compras” ou “ir tratar de um assunto à cidade”.

Desta forma, a importância da água e do seu abastecimento próximo é um pouco “maior” para comunidades empobrecidas que, para obter um pouco dela, são obrigadas a calcorrear centenas de quilómetros por mês, sempre debaixo de um sol impiedoso.

Quando, em finais de Março, a Helpo inaugurou dois poços junto a duas escolas que não tinham água pelo menos a três quilómetros de distância, as populações rejubilaram e agradeceram. Houve festa, em Makassa e em Natchetche. Houve discursos formais e gargalhadas informais, deles e de nós, houve música ao vivo, houve sumo, houve brilhos nos olhares e alegria nos sons. Algumas crianças brincavam na água, como se esse gesto fosse exorcizar o peso que tanto os oprimiu desde que nasceram.

Mas mais que o arrebatamento das mães emocionadas a apertarem-nos o braço quando viram água a jorrar, mexia connosco a vigilância militante de adultos e meninos durante a prospecção do furo.

Fazer um furo pode durar mais ou menos tempo. Obviamente. Mas leva sempre o seu tempo. Primeiro, é necessário que, através de tradições ancestrais ou de técnicas modernas, algo ou alguém afiance que corre água naquele ponto, vários metros abaixo da superfície. Depois, a máquina entra em acção. O problema está em que, mesmo que seja verdade que algures ali corre água, seja a vinte ou a quarenta metros de profundidade, pelo caminho pode encontrar-se o maior inimigo da empreitada: rocha. Se surgir um veio de rocha no caminho do furo, nada há a fazer senão desistir e tentar de novo noutro lado.

Como todos sabem disso, ninguém larga de junto da máquina. Como se estivessem aguardando pelo desfecho de um parto difícil, com curiosidade e tensão, com medo e ansiedade, com um desejo genuíno de que tudo corra bem e com um receio não menos verdadeiro que num segundo o sonho se desfaça. É nesse momento que nos apercebemos claramente da importância daquilo que estamos a fazer. Mais até do que no momento da inauguração em si.

Todas as intervenções são importantes, mas a verdade primordial é que sem água não existe vida. E com tanto tempo e saúde que são poupados com este tipo de intervenções a esta gente que teve de caminhar e sofrer tantos anos, aqui encontramos um sentido. Um fim e um propósito.

domingo, 17 de maio de 2009

O País da Kalash e do Refresco.

Hoje fui à feira. Muita gente, muito barulho, mas bem mais civilizada que algumas de Portugal: pelo menos não há encontrões e os maus cheiros são tão maus como os de Cerveira ou os de Espinho.

Foi a segunda vez, já lá tinha ido há duas ou três semanas. Mesmo assim, havia alguma tensão no ar. Ou então na minha cabeça. Não é coisa simples, isto de ser ave rara.

Fica junto a uma das principais avenidas da cidade. Há realmente muita gente e a confusão é grande. Vende-se tudo: camas, colchões, portas, comida, tecidos, utensílios de cozinha, telas pintadas, roupa, calçado, catanas, instrumentos musicais, colares, pulseiras, enfim... Hoje estava particularmente quente e acho que comecei a sentir o cérebro a cozer devagar debaixo deste sol que parece um cão a morder a cabeça... ou então já é uma situação crónica e só reparo com o calor...

Um rapaz seguia-nos desde que chegáramos. Mas a discrição não era a sua principal característica e acabou por desistir quando se viu observado por todos os lados.

Os polícias passeiam-se, exibindo a arma pessoal, uma AK-47, também conhecida por Kalashnikov. Moçambique é o único país do mundo que tem na sua bandeira nacional uma arma, neste caso, uma Kalashnikov.

Acho uma coisa absolutamente normal, isto de se elevar à categoria de símbolo nacional uma arma de guerra. Portanto, compreende-se o orgulho dos homens. Eu também não me importaria de carregar uma esfera armilar se tivesse a honrada missão de proteger os meus concidadãos. Essa e a de extorquir estrangeiros.

Estava eu muito calmamente sentado à espera que a comitiva aviária avançasse, quando dois desses senhores me abordaram e pediram o passaporte. Nunca ando com o passaporte, mas antes com uma fotocópia autenticada no notário. A fotocópia tem de ter o visto e a autorização de permanência - que são coisas diferentes. Ora, hoje como ia à feira e lá é comum haver assaltos às aves raras, decidi não levar documentos comigo... O passaporte estava em casa e o polícia deu logo a entender que a coisa não ia lá com um "desculpe".
Comecei então a imaginar a minha estadia dourada numa cela de dois por dois, depois de apanhar na boca como gente grande e andar a fugir de matulões solitários. Voltaria a ter o cabelo e a barba grandes, estilo Karl Marx. A minha mãe iniciaria uma campanha nacional estilo "Libertem o Nocas" e daria entrevistas chorosas ao Manuel Luís Goucha. Com um sorrisinho masoquista, resolvi calar-me e ver no que dava aquilo.

Perguntaram-me se alguém poderia trazer-me o passaporte. O meu colega de trabalho moçambicano estava comigo. Pedi-lhe para ir lá. Disse que sim, mas não devia estar com muita vontade.

É que, felizmente, são corruptos. A caminho do posto, fila indiana, eu tecnicamente já detido, o homem comete o erro de pedir moral para o refresco. O meu colega, habitualmente tão calmo, transfigurou-se. Lá lhe disse primeiro que estou no país da Kalash para ajudar. Ele não quis saber. Então lá o informou, de dedo no ar e enquanto me pedia o telemóvel para fazer a chamada, que conhecia o chefe dele, que por sua vez lhe trataria da sede com muito gosto quando soubesse que ele tinha pedido moral para refresco a um estrangeiro de uma ONG.
Então ele percebeu que, por muito grande que a arma dele fosse, nunca chegaria aos calcanhares da minha.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Mercado Negro.












Oitenta quilómetros a oeste de Nampula.

sábado, 9 de maio de 2009

O Homem e a Montanha.



Fecho os olhos, suspiro e encosto cansado à lama de parede podre e inspiro fundo esta rainha imponente que, pela sua existência, dita prepotente a existência do resto.
Abro os olhos, espanto e expludo, lavado na luz de sol bêbedo por esta outra lua que domina céus e dias, terras e noites, homens e bichos, mulheres e os que não vivem, num arrebatamento de totalidade, como se fosse o tempo aqui, suspenso, teu e meu.

O som suave e o sereno silêncio.

O Mundo prostrado... e eu.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

segunda-feira, 4 de maio de 2009

A Arte da Dissimulação.


Aqui há uns dias, fui entregar portas e janelas para a cabana recém construída da escola primária de Teacane, destinada aos serviços administrativos. Não te espantes com o pomposo. Nota bem a palavra "cabana". De cinco por três, feita de lama seca e bambú. Estás a ver as construções que temos por lá? Com betão armado e aquelas ferros ao alto? O princípio é o mesmo. Mas em vez de betão, lama. Em vez de ferros, bambú. O piso é irregular, a paisagem é mato até onde a vista alcança. Os telhados são de capim seco, parecem a cabeleira de um chinês.
O animador dessa escola (ou seja, o professor que colabora com a nossa organização nas intervenções que fazemos lá) pediu para partir de Nampula connosco. E lá fomos.
A viagem leva cerca de quarenta minutos. Os primeiros dez, pela estrada de Angoche, a que liga Nampula àquela cidade costeira, a cerca de três horas de distância, sempre por terra batida. Depois, ao pé das torres de telecomunicações, corta-se à direita, numa entradinha que mal se vê entre o capim de dois metros.
Depois, o costume. Caminho de cabras, com a largura de um carro, muitas vezes com fossos capazes de pôr-me a ver o mundo a quarenta e cinco graus... quando não é mais... nesses momentos, vou muito devagar e de olhos bem fechados... De vez em quando, um miúdo ou uma galinha a atravessar-se à frente. Sempre saídos a correr do meio do maldito capim que mais parece uma parede que não deixa ver nada. Às vezes, as galinhas correm mas em frente, não saindo do caminho. Expoentes do nível intelectual dominante. Outras vezes, mamãs com um peito de fora e um bebé às costas, meio atarantadas pela interrupção das lides diárias, a ver quem passa.
Nesses quarenta minutos fui conversando com o animador. É uma das pessoas que mais apreciei nesta terra. Julgo eu, com cerca de quarenta anos de idade, é uma pessoa ponderada e assertiva, que gosta mais de estar calado do que de falar demais. Nunca diz asneiras. Antes de dizê-las, pergunta. Por isso, nunca as diz.
Quando ainda íamos pela estrada de Angoche, a propósito já não sei de quê, queixei-me das estradas de Moçambique. Que em Portugal, antigamente, levava-se cinco horas para ir da capital para a segunda maior cidade do país. Mas que esse tempo foi reduzido para metade quando um governo de boa memória decidiu investir nas vias de comunicação. E expliquei-lhe as vantagens para a economia de um país existirem boas vias de comunicação, onde as deslocações sejam rápidas, seguras e, por isso, mais rentáveis. Ele mostrou espanto.
Animado, perguntou-me que mais eu pensava que poderiam ser boas apostas para o país.
Falei do sabido. Da educação. De como é importante ter as crianças na escola. E ele respondeu: e hospitais?!
E eu perguntei: de que vale ter hospitais se não tiver médicos nem enfermeiros formados? Calou-se.
Então, avancei. Ora pense lá bem. Se, daqui a uma geração, toda a gente com menos de trinta anos souber ler e escrever e uns outros milhares tiverem cursos superiores, o que vai acontecer? Ele disse algo como "será muito bom"... Disse-o como diria nunca provei lagosta, mas dizem que é muito bom. Eu respondi: será bom?... mas sabe para quê? Para a democracia.
Aí ele riu, meio envergonhado, meio assustado.
Sabe, meu amigo, antes de construir estradas, escolas ou hospitais, sabe do que precisa mesmo a sua terra?
Pelo canto do olho, senti-o a olhar para mim. Devia estar com os olhos esbugalhados, como uma criança que espera para saber que prenda lhe deixou o Pai Natal. Diga doutor, diga!...
Acabar com a corrupção.
Com esta maldita doença que mina tudo e todos em toda a parte. Com a corrupção que pode ser apenas o polícia de trânsito que inventa transgressões para pedir cem ou duzentos paus ao pobre diabo que lhe apareceu à frente, como pode ser o presidente da república que tem quotas em todas as grandes empresas do país, às quais são adjudicados, directa ou indirectamente, todos os grandes concursos públicos...
...enquanto a mulher dele diz na televisão às populações de uma determinada província assolada pela fome para que elas comam os macacos que neste momento são uma praga naquela zona. Estilo dois em um, matar dois coelhos de uma cajadada só. Já que deu a ideia, podia dar uma receita ou duas... presumo que coma imenso macaco, a senhora.
Ele continuava a rir, nervoso. Eu também ri e perguntei veja lá, não vai dizer agora que é secretário do Partido e que amanhã de manhã já estou na fronteira do Malawi com um chuto no rabo e umas costelas partidas!...
Que não, não se preocupe... Mas tem razão, doutor. Tem toda a razão.
Claro que tenho razão! Já imaginou os milhões de redes mosquiteiras (melhor prevenção da malária), as toneladas de sementes (sempre em falta), os medicamentos (praticamente inexistentes fora da cidade) que as pessoas comuns poderiam ter e os quadros negros novos (mais raros que água), o giz, lápis e canetas (inexistentes), os livros escolares (inexistentes), os cadernos (inexistentes), as salas novas (...) que a sua escola e tantas outras poderiam ter, se não se estivesse a construir um palácio presidencial megalómano de milhões de dólares a oitenta quilómetros daqui? Bastava isso, quanto mais o resto. Isso também é corrupção.
Ele calava-se e ia-se afundando no assento do carro. Está a falar bem, doutor, está a falar bem...
Mas à medida que o doutor ia falando e ia pensando, ia concluindo que Moçambique é tão corrupto como outros países ditos desenvolvidos.
A diferença está na arte da dissimulação. Arte que, neste país, pela manifesta desnecessidade que decorre do embrutecimento ignorante em que vive anestesiada toda a população, não teve de ser sublimada à perfeita capacidade de representação, mascarada de assertividade e falsa serenidade, da "vital importância da estabilidade", mascarada dessa política afectada e efeminada, liderada e seguida pelos mais fracos dos fracos, que vêem nessa "estabilidade" versão charco de água choca uma oportunidade de vingarem os tristes dias de adolescência em que eram insultados e batidos e gozados por todos os outros e outras... Esse é o mundo desenvolvido.
Aqui não é preciso vestir fatos bonitos, dizer palavras tão sedutoras quanto assignificadas, mostrar uma falsa indignação virginal por se ser acusado de um crime quando há suspeitas fundadas para isso. Porque ninguém sabe ler, ninguém lê, ninguém quer saber. Porque aqui passa-se fome e nunca se sabe o dia de amanhã. Aqui, bênção de Deus não é ter emprego, ter carro e ter casa. É ter o que comer pelo menos uma vez por dia.

terça-feira, 14 de abril de 2009

A Terceira Páscoa.

Todos afluíram à comunidade onde o Missionário iria celebrar a Páscoa. Trinta e tal baptismos, setenta e muitos casamentos e a festa que é por si só uma eucaristia africana. Uma pobreza apenas aparente. Nada nem ninguém poderiam faltar.


Nem eles, todos.

Nem as noivas, com vestidos feitos de toalhas de mesa e ténis de plástico.

Nem o Missionário, com a sua extraordinária alba africana.

Nem a Fé, expressa em lágrimas e sorrisos.

Nem as danças, para Ele.

Nem os vizinhos muçulmanos, curiosos.

Nem as outras mulheres, curiosas.

Nem as bicicletas, com as galinhas.

Nem o Sol.

Nem a cor.

Nem eu, pela terceira Páscoa desterrado, pela terceira Páscoa deslumbrado.


video

sábado, 11 de abril de 2009

terça-feira, 7 de abril de 2009

A Diferença do Braço.

Hoje pela manhãzinha participei na abertura oficial do ano lectivo numa escolinha (escola pré-primária) que a Helpo vai apoiar em breve. A escolinha foi aberta por uma ONG que estava por aqui e fechou assim que ela saiu de Moçambique. Aqui é assim. Agora foi reaberta, por acção da Igreja e do Missionário, porque fica no território da sua paróquia. Fui buscá-lo ao Marrere, onde tomei cafezinho fresco e ainda discuti o calor, o frio e a malária, e seguimos pela picada até ao bairro de Nacahe.
Sentados em círculo, por baixo da maior árvore das redondezas, nós, os papás, as mamãs, o ancião da comunidade e, claro está, no centro do círculo, as crianças, em estilo de cerimónia oficial.
A tristeza dos líderes locais pelas ausências do responsável local do Ministério da Educação e do correspondente ao nosso Presidente de Junta era patente. O director da escolinha conduzia a cerimónia, orientando-se criteriosamente pelo papelinho que continha o programa. Em cada momento, estavam previstas intervenções dos dois ausentes. Ele lia, com um misto de medo e vergonha: "ágôra o Senhor Chefi do Posto Adiministrativo dêvêria dizer algumas pálávrás, más... não marcô prêsença...". Repetiu esta frase uma meia dúzia de vezes, sempre a encolher os ombros, sempre que o programa previa.
Havia uma criança subnutrida. Nota-se imediatamente. São crianças diferentes e não é só na magreza anormal.
Visitámos as instalações. Observámos os monitores a darem biscoitos e refrescos às crianças com grande formalismo e protocolo, porque afinal, estavam lá os mucunhas (brancos, mulatos ou estrangeiros), mesmo apesar de o poder político ter-se borrifado completamente para aquela pequena comunidade suburbana de Nampula. Afinal de contas, o convite não incluía almoço. Compreende-se. Só mesmo um mucunha idiota que aprecia especialmente levantar-se às seis da manhã para aceitar um convite para uma cerimónia chata que, ainda por cima, não inclui almoço.
As horas passaram e foram desaguar num almoço com um conjunto de portugueses, sem que tal estivesse previsto. Em casa de um português, há muitos anos em Moçambique, pessoa bem colocada que conseguiu construir a sua casinha de campo, com direito a cozinha rústica no exterior, com forno a lenha, bar para os amigos e uma longa mesa por baixo do alpendre.
Comeu-se muito bem. Bebeu-se também muito bem. E conversou-se melhor. O almoço terminou às dezassete horas, após uma divertida partida de loto.
Com tudo isto, não deixei de pensar naquilo que um director de uma escola me disse ontem à noite, ao telefone.
Organizei uma reunião com os animadores da Helpo nas diferentes escolas e escolinhas onde a Helpo intervém - são professores das escolas, que nos ajudam localmente nas nossas tarefas. Aproxima-se uma das duas alturas anuais de envio de carta dos meninos aos padrinhos portugueses e, considerando que são duas mil e tal crianças apadrinhadas, há que preparar com antecedência esse envio.
Há uma comunidade que não tem animador há uns dois meses. Nessas situações, para efeitos de relacionamento institucional com a Helpo, quem responde é o director da escola. Ora, os animadores recebem uma pequena compensação pela ajuda que dão à organização. Se eles não ajudam, se não trabalham ou se, simplesmente, não existem, não há lugar ao pagamento dessa compensação.
Aqui, o mucunha é um multibanco, dizia hoje o nosso anfitrião ao almoço. Nada mais que isso. E tem que dar, senão não serve de nada e "está estragado". Pois. É mesmo assim. Acontece que a Helpo não é um multibanco. A Helpo ajuda com materiais, não com dinheiro. E este Senhor Director tem uma enorme dificuldade em entender isto. Entendeu, enquanto havia animador, que pelo mero facto de ser director da escola e o animador ser um professor da mesma, deveria ter uma percentagem daquilo que o animador recebia da Helpo, fazendo pressões e ameaçando o animador para que este o informasse sempre que recebia e para que lhe desse uma parte. Não havendo animador - ó maravilha! - o dinheiro que os idiotas dos mucunhas dão deveria ser para ele.
Ontem, à frente de doze ou treze animadores, disse-lhe olhos nos olhos que não haveria pagamento para a escola dele, primeiro porque não havia animador, segundo porque não tinha sido feita qualquer intervenção naquela comunidade no mês de Março. Ficou boquiaberto. Ficou tão siderado que balbuciou uma desculpa qualquer e saiu imediatamente. Esperou cerca de duas horas (tempo que eu fiz a reunião durar até chegar à parte dos pagamentos, para obrigá-los a trabalhar e a ficar na reunião) sem pronunciar uma palavra. Estava, autenticamente, à espera de receber, nada mais. Quando chegou à parte que o tinha trazido à reunião, correu-lhe mal. Não recebeu. À noite telefonou-me, dizendo num tom arrogante que considerava isto uma injustiça, porque outras comunidades tinham recebido sem fazer nada. Respondi-lhe que não tenho satisfações a dar-lhe, que pago a quem entendo que devo pagar. E que ele devia ter vergonha, porque em vez de pedir ajudas específicas para as crianças ou para a escola, só sabia pedir dinheiro para ele. O mesmo que se vangloriava de ter acalmado a população local que andava convencida que os brancos andam a roubar crianças às populações do mato, quando o que provavelmente fez foi apenas dizer que o tinha feito. E que não metia medo a ninguém.
A questão é que aqui ninguém vem dar educação a ninguém. Não vale a pena tentar educar quem não quer ser educado. Quem mata colegas de trabalho porque eles andam mais no carro do patrão. Quem não quer saber de limpar e dar de comer ao filho de ano e meio que pesa cinco quilos. Quem não vai a uma cerimónia que deveria ir porque não há almoço. Quem só tapa os buracos da estrada porque por ali passa todos os dias a esposa de um alto funcionário do Estado a caminho das aulas nocturnas na universidade. Quem mete ao bolso o dinheiro que foi dado para comprar traves de madeira para sustentar um telhado de uma sala de escola e vai ao mato cortar dois pés de eucalipto para fazer de trave. Quem rouba peças de um poço acabado de estrear na escola e que aliviava as vidas de centenas de pessoas. Quem obriga um homem a passar vinte e seis horas à porta da minha casa, supostamente a fazer protecção à mesma e que só o substitui porque o branco vai à sede da empresa de segurança perguntar se vão ficar à espera que o desgraçado caia para o lado, porque enquanto foi o desgraçado a pedir para ser rendido, tal não aconteceu. Quem ameaça com a manipulação e a fúria de uma população inteira só porque não recebeu o subsídio que entende ser seu por direito divino.
O meu anfitrião de hoje explicava tudo isto de forma colorida, batendo no seu antebraço esquerdo com força. "A diferença está aqui". Disse ainda outras coisas que me escuso a reproduzir. Porque não gostei e porque me chocaram.
Mas a verdade é que seja qual for a razão, África é o que é e não acredito que dentro de cem anos seja diferente. Se é da pele, se é do calor ou se é da colonização, não sei. O que sei é que o Missionário tinha razão, hoje de manhã, enquanto andávamos aos solavancos na picada: Deus é preto. E é preto porque só sendo preto é que poderia favorecer esta terra com tantas riquezas e fartura, que leva esta gente a fiar-se na velha máxima "Deus dá" (por isso não têm que se preocupar nem esforçar muito porque aparece sempre). Na Europa teve sempre de se trabalhar muito para ter aquilo que aqui nasce espontaneamente.
E amanhã é outro dia.

sábado, 4 de abril de 2009

Domingo Nove.

Tete fica em Moçambique. E isto é mesmo verdade.

Comecei a suspeitar que algo de estranho se passava quando, na distribuição de material que até partilhei contigo numa foto ali em baixo (a do carro ao pé da árvore), chamei por uma criança de seu nome Sábado Trinta.

Sábado Trinta?


Pois é. Eu merecia ser Domingo Nove.

Já se sabe que, quando um nome termina em "es", isso significa "ser filho de". Por exemplo, Mendes é filho de Mendo. Nunes, de Nuno. Rodrigues, de Rodrigo, Gonçalves de Gonçalo, e por aí fora. Isso é tudo muito simples. Mas agora, Majuma é um fenómeno à parte. É talvez o único nome da língua portuguesa que denuncia que, se é Majuma, tem uma irmã e que essa irmã tem de ser mais velha. E isto não sou eu que, vítima de um tédio tal, já papei todos os Dr. House e Sherlock Holmes que já foram feitos, decidi meter-me agora a detective. É apenas porque Majuma é mais uma, num belo sotaque de Viseu adaptado às Áfricas outrora portuguesas...

E como este, muitos outros fenómenos, mas que só te direi se pedires muito...

quinta-feira, 2 de abril de 2009

A Famosa Galinha-Brava.


De manhã bateu um peixe à porta de casa para comer assado com batatinhas ao almoço feito pelo zeferino como ele faz sempre pois só sabe fazer daquela única maneira que um dia qualquer alguém ensinou a ele e a todos os meninos homens que assolam a casa todos os dias para vender peixe e verdes e carne como abutres de ver o homem do cesto de cinquenta quilos à cabeça e água fétida a descer-lhe pelo corpo já de si suado e sem banho e os olhos riscados de vermelho e de morte e de exaustão e de pobreza e de ignorância e de tudo e tive pena do encharcado e abri o peixe na guelra que a mãe ensinou e vi cor-de-rosa. E tirei um quilo da cabeça do encharcado ignorante pobre exausto morto sujo suado de quem tive pena.

Tudo se perde e tudo se tira.

Existe um supermercado com ar disso em Nampula. Chamam-lhe Shoprite, que deve ser lido como se lê Sprite, ou seja, com o “i” aberto, para que pareça que se está a dizer “Shop Right”. É um supermercado, que faz lembrar o Pingo Doce da minha vida, o que fica na Avenida da República, em Gaia, aquela que aparecia nas notícias de trânsito antes de haver mais estradas, variantes e circulares do que há pessoas. Em Gaia. Antes era Pão de Açúcar. Eu preferia Pão de Açúcar, com o elefante. E os sacos plásticos eram laranja.


O Shoprite tem de tudo um pouco, incluíndo a invejável aura de local muito perigoso. Não lá dentro. Lá dentro, o perigo está na prateleira da carne, normalmente de cores variadas e cheiros intensos. É cá fora. Não para mim, ou para ti, mas para o carro. Se fores ao Shoprite, think rite as well, don’t take your car. Porque a menos que já conheças a malandragem que por ali passa os dias ou que dês sempre a moedinha de dez meticais, vai faltar-te alguma coisa. Um espelho. Um pisca. Um dia destes, uma jante. Ah e não têm fiambre. Mas cá fora, a batata é mais barata. Na candonga, que aqui é pomposamente designada mercado informal. Convenhamos, seria um passo civilizacional demasiado largo chamar-lhe mercado negro. Quando isso acontecer, as ONGs deixarão de existir.

Não me importam muito as convenções nem as tradições nem as conveniências nem as formatações nem as normas nem as vergonhas nem aquilo que é esperado. Importam-me mais as memórias e as sinceridades, as verdades e as saudades, as ansiedades e as memórias que tenho de tempos e de momentos que recordo tão bem e que são tão reais que ainda consigo sentir e cheirar e ver que tenho a certeza que esses tempos não são tempos, são realidades que resistem e que existem agora algures num espaço que não sei onde fica, mas que sei que pelo menos da minha memória não fogem. Na minha memória estão seguros. Estão comigo.

Nada fica e nada regressa.

É como os amigos que nos morrem. Ou que não morrendo, deixámos para sempre. Já falei disto antes. É como eles. Que se vão, que nunca mais veremos mas que no fundo ficam para sempre no momento em que foram. Nas nossas cabeças. Nas nossas memórias. Eles continuam a viver, apenas com o detalhe de nunca envelhecerem. Eles ficam lá. Eu tenho, não tive, amigos que o foram e que o são e que só vão morrer quando eu morrer. Somente muito mais novos que eu. Eu também vou morrer, com muitas idades, em muitas memórias, em muitos locais, muitas vezes. E em ti, também.

Mas choramos sempre, não é? E às vezes choramos tanto…

Só. No meu caminho. Estreito, entre vozes e risos. Vozes que são a minha companhia, risos que me mostram os perigos. Como fantasmas.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

domingo, 29 de março de 2009

O Antes e o Depois.

Perguntavas-me agora mesmo como vai ser depois. Que não, depois não vou ser igual. Mas se ainda não sabes sequer como será antes, como queres já adivinhar o que vai ser depois?...
Os domingos à noite são sempre nostálgicos. Talvez por serem o fim de algo e a véspera do início de outra coisa. Talvez porque a noite anterior foi tão inesquecível, que passamos a seguinte a recordá-la. Ou porque não passa nada de jeito na televisão e não apetece cumprir os compromissos naturais. Ou porque nos sentimos miseráveis pela vida triste que levamos e que vai repetir-se amanhã. Quando na verdade, a miséria só está na cabeça de cada um.
Somos o produto de todos os momentos que vivemos. Das reacções que temos quando conhecemos alguém, quando interagimos com os outros, quando vemos e cheiramos e tocamos e ouvimos e provamos algo novo. Ou velho. Somos permanentemente o antes e o depois de nós próprios, em cada segundo que passa. E então? Vamos enlouquecer a pensar nisso, como se estivéssemos enfiados numa sala de espelhos? Isto é um facto inevitável, tão inevitável como o facto de estarmos vivos quando lemos isto.
O que realmente interessa é o que fazemos disso. Se aprendemos ou não. Se crescemos ou se ficamos. E se temos medo de fazer. É isso que interessa.
Por isso, não há muito mais que possa dizer-te. Excepto que

sábado, 28 de março de 2009

O Titio de Natcheche?


Ou a próxima boys band do pedaço.

As Mamãs de Natcheche.

Hoje foi dia de festa. Inaugurámos dois poços. Distribuição de sumo e bolachas pelas crianças. Banda de um orfanato particular de inspiração evangélica a tocar de cima da carrinha de caixa aberta. Povo dançante. Pais e mães (que aqui são tratados por "papá" e "mamã" por todos, independentemente de serem mesmo filhos ou não dos visados), líderes comunitários, feiticeiros, professores, todos presentes. Até o Missionário deu lá um salto.
Todos radiantes com a festa e, já agora, também satisfeitos por já não terem de fazer quilómetros debaixo deste sol assassino para terem água para beber. Sorrisos, cantigas, danças.
Mas as mamãs... As mamãs são de derreter o coração.

























São rostos marcados, rostos queimados. Mas são sorrisos e olhares que são lições. Para ti e para mim.

quinta-feira, 26 de março de 2009

O Sol a Morrer.


O Outro Midas.

Ainda sobre os laços e sobre a tendência para estabelecer relações de afecto e procurar replicar os objectos de saudade em contextos de solidão e de adaptação a ambientes (aparentemente) hostis...

Por vezes, pode ser um objecto improvável. Não tem de ser necessariamente saudade do pai ou da mãe - ou de ambos; do parceiro ou da parceira - ou de ambos; do cão ou da cadela - ou de ambos; do amigo ou da amiga - ou de ambos; da playstation ou da nintendo - ou de ambos; do bacalhau com natas ou do arroz de cabidela - ou de nenhum.

Por vezes funciona ao contrário: por encontrarmos uma réplica (e só depois disso) de algo que está no nosso passado, apercebemo-nos da saudade sentida do objecto de saudade propriamente dito. Algo de que antes não sentíamos saudade de forma consciente.

Eu tinha saudades de alguém que em dada altura da minha vida desempenhou um papel bastante importante, mas não me dava conta disso. Até que encontrei o Missionário.

O Missionário é um homem de quarenta e alguns anos e está em Moçambique há onze. Homem endurecido pelo tempo e pela terra. Homem de obra e de palavra. Simples mas determinado, beirão, como só um beirão sabe ser. Passou vários anos em Murrupula, a setenta quilómetros de Nampula, bem no meio do mato africano, no fundo do fundo do fundo, onde aparecem aldeias ao virar de uma curva de picada tapada pelo capim, após quilómetros e quilómetros de condução difícil pelo meio do verde exuberante. Lá, cristianizou comunidades animistas, construiu um hospital, fez escolas, deu ordem, propósito e um conceito a centenas de vidas. Sempre com o ar mais bonacheirão, calmo e sorridente que é possível imaginar em alguém que um dia resolveu dar a vida pelos outros.

Nós, que também trabalhamos nesse fundo do fundo do fundo, sentimos a todo o momento a profunda influência que este homem deixou, a marca deixada a ferro quente, que se sente no amor daquela gente por ele, sussurrado pelas vozes e estampado nos olhares, quando nos perguntam pelo amigo que mudou as suas vidas para sempre.
Há alguns meses, a hierarquia enviou-o para um novo desafio: a Missão do Marrere, comunidade dos arredores de Nampula, a cerca de dezasseis quilómetros.
A Missão tem um hospital que está a ser recuperado e que recebe doentes de todo o lado e que já foi um dos melhores hospitais de toda a província; tem uma escola politécnica que ensina e forma centenas de jovens; dá trabalho e emprego a dezenas de pessoas, havendo de tudo: carpinteiros, serralheiros, agricultores, professores, contínuos, empregados domésticos, pedreiros, trolhas, médicos, enfermeiros, etc; tem "machambas" (hortas) que tiram a fome a uma população inteira, ocupando um território que literalmente se perde de vista. Um oásis no deserto, uma ilha de esperança no meio do nada.





Mas tudo isto é o Missionário, que parece ter um toque de Midas para trazer vida e dinâmica a tudo aquilo que toca. O que nesta terra tão pobre vale mais que ouro. Antes da sua chegada, a Missão do Marrere era uma memória, um rasto quase apagado dos tempos áureos, uma recordação abandonada ao tempo e à incúria.

Neste momento é um dos nossos principais parceiros de acção. O esquema é muito simples: ao encomendar à Missão produtos ou serviços de que precisamos para aplicar nas comunidades rurais onde intervimos, através da carpintaria, da serralharia ou de outros serviços, estamos a apoiar duas vezes com um só montante: a Missão, que é paga pelo serviço e a comunidade que beneficia directamente da iniciativa.

Por vezes, ao fim de semana, damos lá um salto para tomar café com ele. E por lá ficamos toda a tarde, debaixo de um alpendre muito simpático, a bebericar um digestivo e a falar de tudo e de nada. Apenas a apreciar o ar e as cores quentes de África e a companhia dos outros desterrados. A deixar o tempo passar lentamente, alternando debates mornos com períodos intermináveis de silêncio que em momento algum são desconfortáveis.

O Missionário lembra-me outro, que sem o ter sido efectivamente, é-o todos os dias da sua vida. E que me induzia um sentimento de ser bem acolhido e de estar protegido onde quer que me encontrasse com ele. E de quem sinto muitas saudades. Alguém que a vida levou para outro caminho, diferente do meu. Há pessoas assim, que conseguem criar-nos essa sensação de segurança, de apoio e de acolhimento genuíno, só pelo gesto e pelo comportamento, pelo olhar e pelo tom da voz. São homens de Deus. São homens com Deus. E estes homens são assim.

terça-feira, 24 de março de 2009

A Pausa.

Eu avisei-te. Moçambique tem destas coisas. Não há nada garantido, tudo é precário e provisório.
Estamos sem internet desde Sábado e sem perspectivas imediatas de resolução. Basta cair uma chuva ou um grupo de bandidos roubar algum do cabo que se estende ao longo dos dois mil quilómetros que separam Nampula de Maputo.
Não fiques triste. Não me esqueci de ti, nem vou esquecer. Talvez amanhã, talvez depois. Mas voltarei aqui, para continuar a contar-te esta história.

sábado, 21 de março de 2009

A Laranja Azeda.

Um custo inerente à vida nómada é acabar por conhecer muitas pessoas e muito diferentes umas das outras. Diz-se custo para os indivíduos sensíveis, que precisam de expressar e trocar emoções com outro, qualquer outro, com quem haja algum tipo de identificação e com quem se partilhe experiências e narrativas de vida semelhantes. Como se para replicar uma vaga sensação de estar em casa. Poderíamos falar de benefício, diriam os mais optimistas ou inexperientes: "Eh pá, então não é bom ter conhecimentos nos quatro cantos do mundo?" Não. Em si mesmo, não é especialmente bom. Na verdade, é bom porquê? Porque temos um número de telefone para onde ligar se, um dia, por um enorme acaso, voltarmos a esse local? Para mostrar aos nossos amigos estarrecidos a nossa exótica lista telefónica? Na verdade, trata-se mais de um custo do que de um benefício, devido ao desgosto da inevitável separação, fatal como a morte. Mais durável e mais profundo que qualquer "amizade" passageira. Há poucos estados de alma tão tristes e amargos como aquele que é dominado pelo desgosto da separação. Por isso, a prevenção aconselhada para evitar este tipo de incómodos é, simplesmente, não aprofundar laços, desde logo. Dever-se-á, com certeza, estabelecer relações de parceria reciprocamente úteis e eficientes, das quais saiam vantagens concretas para as partes envolvidas, mas transitórias no tempo e cordiais no modo. É de sublinhar novamente que o acto de colocar emocionalidade nessas relações é um passo certo para a dor da perda, que indiscutivelmente é das dores mais penosas que podem ser sentidas durante a vida de uma pessoa - v.g., a morte de um ente querido.

Um bom exemplo para o exposto fica ilustrado pela foto em baixo, em que se questiona: que seria do indivíduo se se afeiçoasse a coisas alegadamente fofinhas e maravilhosas como esta? Obviamente, trata-se de uma estratégia maliciosa para emocionar o observador desprevenido e, dessa forma, obter uma posição de vantagem relativa e tirar proveitos disso. O indivíduo deverá manter-se frio nas avaliações que faz e mecânico nas tarefas que desempenha, a todo o tempo, a bem do seu próprio equilíbrio mental.
Assim, terá uma vida tranquila, planificada e sem surpresas...

Em vez de uma vida imprevisível, plena e apaixonada.


quarta-feira, 18 de março de 2009

Mundo Humano.

Helpo significa "ajudar" em esperanto, para que todos entendam e ninguém fique de fora. Para que a universalidade da acção se fundamente na universalidade da palavra e esta se reflicta naquela. Para que todos se sintam responsáveis.

Educar para o Desenvolvimento. Dar a cana, dar o anzol, dar o isco, mostrar como se lança a linha e dizer e repetir e convencer que é possível.
Insistir e resistir. Insistir nas convicções e resistir contra as probabilidades.

Nós e eles...


Helpo - Organização Não Governamental para o Desenvolvimento.

http://www.helpo.pt/

domingo, 15 de março de 2009

Os Fins e os Meios.

É bastante provável que acabe por abordar este tema muitas vezes, ao longo desta história que vou contar-te. Espero não me tornar aborrecido. Espero que compreendas. Trata-se daquilo que me trouxe aqui.
O que faço.
Bem. Muitas coisas. Uma delas é ir às comunidades rurais de Nampula, concretamente às escolas básicas locais, para realizar distribuições de material escolar, brinquedos, sabão ou prendas que os padrinhos das crianças oferecem. Mais tarde falarei do processo subjacente ao apadrinhamento, mas mais tarde, está bem? Se eu contar tudo de uma só vez, perde a piada...
Chegamos à escola, que, se na maior parte dos casos significa uma ou duas casas feitas de lama e palha, noutros significa a sombra da maior árvore das redondezas. A escola de Makassa é uma honrosa excepção, onde, graças aos esforços de alguns, foi construída uma escola que faz jus ao nome. O Dionísio, que é o menino que está comigo na foto em baixo, é um dos felizes contemplados com a nova escola, bem como com um poço, que foi terminado na sexta-feira.
Isto dos poços é assunto muito sério. Possivelmente lá para o fim desta semana, falo-te mais sobre isso, uma vez que vamos inaugurar dois que foram financiados e mandados construir pela organização.
Bom. Então, não é complicado. No dia anterior à distribuição, lá para o fim da tarde, começamos a preparar os kits com o saco, lápis, caderno, borracha e por vezes mais qualquer coisita. Além disso, também preparamos as prendas individuais dos padrinhos.
No dia seguinte, já conheces o início, pelo menos a parte da estrada, do vento e do Sol e dessas lamechices todas. Acerca disso, poderia dar-te o lado negro da viagem. Da forma mais cínica e sarcástica que me fosse possível. Mas não vou fazê-lo. Não te vou falar das crateras na estrada nem da experiência que vais ganhando em manuseamento de veículos ligeiros quase pesados. E da consequente destreza no desvio de carros que se dirigem a ti na tua faixa, só porque a faixa deles está na verdade cortada devido a uma dessas crateras. Indianos ricos às portas das suas lojas que vendem mantas, bicicletas, chaves de fendas, bolinhos, mães de indianos, terrenos na Lua e eles próprios, pelo preço certo. Lixo por todo o lado. Pessoas a percorrerem a pé, todos os dias, dezenas de quilómetros para ganharem um euro por dia. Dezenas de "chapas" transportando quem vive mais longe da cidade.
Bom. Chegamos à comunidade. Dependendo de alguns factores (também destes falarei depois), as crianças poderão vir ou não atrás da pick-up enquanto gritam o nome da organização. Não deixa de ser algo preocupante e constrangedor. Preocupante porque aumenta a responsabilidade: se temos crianças a gritar o nosso nome e algo corre mal depois, as consequências serão tão mais graves quanto as expectativas à chegada, que eram manifestamente altas; constrangedor porque não viemos salvar ninguém de coisa alguma, apenas trazer um pequeno extra àquelas vidas tão carenciadas. Um pequeno alívio. Alívio que é um meio para alcançar e dar algo maior. Não se pense que o objectivo final é dar cadernos ou brinquedos. Pelo menos, o meu. O meu objectivo é outro.
Distribuímos o que temos, da forma mais ordeira possível, com a ajuda de um ou dois professores. O jeito é algo clínico. É um jogo perigoso: não faz sentido entregar algo a uma criança com uma expressão sisuda, mas por outro lado é preciso cautela, para não nos envolvermos demasiado.
Depois vêm os chavões, que alimentam a alma. Os olhos enormes, os sorrisos escancarados, os esgares envergonhados... São chavões, mas alimentam mesmo a alma...

Raça Humana.


















Pingyao, China. Março 2007

















Makassa - Nampula, Moçambique. Março 2009
















Angkor Wat, Cambodja. Setembro 2007


Uma Terra, uma Raça.

A Resposta.


Há quanto tempo me perguntas se estou bem?

Há quanto tempo te respondo sempre da mesma forma?

A vida é um caminho que se faz uma só vez. Por isso, tem calma. Tenho todo o tempo do caminho para vir a ser feliz.
Lembras-te da minha professora de Introdução, do 1.ºano? A melhor de todos... Ela contava-me que nunca tinha dado vinte a aluno algum, porque dar um vinte significaria assumir que nunca mais na sua carreira de professora poderia vir a ter um aluno com capacidades superiores àquele a quem tinha acabado de dar vinte. O que faz sentido.
A vida deve ser vivida assim. Deve ser trabalhar no duro para o vinte, sem algum dia se aceitar que se chegou lá.
Olhas para mim, franzes o sobrolho, encolhes os ombros e perguntas por que decidi assim. Mas pensa... Teria eu outra opção? Eu não quero só dezanove.
Não, não estou bem. Mas sabes, nunca estive nem estarei. Porque sou assim, porque não consigo compreender nem imaginar outra forma de ser. E já é tempo de finalmente sorrir e respirar fundo e feliz com isso. Aqui, aí, ou noutra parte qualquer do mundo, se existisse.

E tu, como estás?

sábado, 14 de março de 2009

A Vitória.


Ainda restam dúvidas?

sexta-feira, 13 de março de 2009

A Estrada e o Vento.

Todos os dias saímos bem cedo de casa para nos fazermos à estrada.

São minutos de silêncio. São minutos do nosso silêncio.

Minutos onde se ouve o som do carro, da rádio que fala o português de casa, onde se cheira a rua e o céu, minutos em que sabemos que vamos para onde viemos de onde nada há mas tudo chega.

Com o Sol já tão quente a fazer-nos fechar os olhos, com o vento a embalar-nos o sono que ficou para trás.

A estrada é longa, recta perpétua, nesta terra que não acaba.


quinta-feira, 12 de março de 2009

A Viagem.

Como bem sabes, há cerca de dois anos fiz uma despedida semelhante. No mesmo local, parti para aquela que chamei "a segunda parte". E que bem que a chamei assim.


Nestas viagens longas, que normalmente envolvem noite, vêem-se coisas espantosas, se, como eu, não se dormir com facilidade a dez quilómetros de altitude. Quero dizer, coisas espantosas vistas de cima para baixo.

Desta vez, que levantei de Frankfurt para pousar em Joanesburgo, pensei que, de outra forma, fosse um impacto semelhante ao que tive quando saí de Londres para Pequim. A verdade é que não há como a primeira vez. Claro que arrepia voar uma, duas horas seguidas e não ver uma única luz lá em baixo. Voar à noite sobre África é assim. Mas não foi o mesmo que ver as gigantescas fogueiras-farol perdidas na imensidão gelada de que te falei da outra vez. Londres à noite, a Sibéria ou o Deserto de Gobi, o meu deserto de todas as revoluções, a Outra Porta, aquela que se fechou atrás de mim quando a cruzei, foram encontros directos com a magnitude do nosso mundo. Do criado por Deus e do outro.


Chegar a Joanesburgo é chegar a África, acontecimento mítico já contado e recontado por centenas de escritores e de amadores. Porém, é um chegar algo ensosso, pois não é possível sair do aeroporto, que por sua vez é todo ele ocidental. Digo isto porque a chegada a África pede que se respire o seu ar e se sinta o seu sol na face. Em Joanesburgo só através dos olhos deixam provar África. Que já não é pouco, mas que não chega. Para ambientes condicionados e herméticos já chegou o resto da minha vida, portanto, vou deixar para depois essa parte.


Após algumas horas no dito, deixei a África do Sul, que dá pistas e aromas leves do que vai ser encontrado depois, com tanta cor que se vê nas roupas das senhoras que passam, ou nas línguas estranhas que roçam os ouvidos a todo o tempo.


O dia estava bonito, com muita luz. Contrariamente ao que me acontece sempre, desta vez tive sorte e não calhei no lugar junto à asa. O vôo Jo'burg - Maputo é bastante curto, cerca de quarenta e cinco minutos, mas é suficiente para sufocar a visão de tanto verde.


Sair do avião em Maputo é entrar numa máquina do tempo. O aeroporto, como outros em Moçambique, tem varanda para quem quiser esperar os seus entes queridos enquanto observa os aviões a partir e a chegar. Se bem que, neste caso, não houvesse mais que um avião da TAP e aquele em que eu cheguei para se ver na única pista existente.


Sair significa molhar os pulmões com uma água que permanentemente está no ar e que ainda não me saiu. Uma água quente, que se insinua persistente na pele e nos olhos no preciso instante em que se contacta com o ar africano. Em Maputo, atravessa-se a pista a pé e entra-se no terminal por uma porta estreita (a única) que ao lado tem uma pequena placa de madeira, muito velha e estragada, com a inscrição "Gate 10". Não vi os outros nove...


Como podes imaginar, nesta altura, já com vinte horas de viagem, sentia-me algo cansado. Tive de esperar longamente na sala de espera para que um funcionário do aeroporto gritasse "Nampula" e a fila para sair da sala e entrar no avião começasse a formar-se. É assim que em Maputo se faz a chamada para o "boarding". Depois, foi mais uma hora dentro do avião que, por uma razão desconhecida, não partia. Trata-se de aviões que fazem ininterruptamente a viagem Maputo-Nampula-Pemba-Nampula-Maputo, qual ryanair dos trópicos.


Ainda não deixei de estar cansado. Desde que aqui estou, a temperatura nunca baixou dos vinte e oito graus, com tanta humidade. O fim do dia significa necessidade urgente de tomar banho, sob pena de a confusão ser tanta que já nem se percebe se somos gente ou pedaços ambulantes de nhanha. Mas não te preocupes: tenho água e sabão a rodos. Excepto depois da meia-noite.

Mais duas horas, mais verde a perder de vista. E depois, por fim.
Nampula.